Ele não se movia. O braço zumbia estático sobre a cama, dormente. Balançava os dedos na inútil tentativa de fazer o sangue circular, mas a mão já não obedecia. Concentrava-se na imagem do ventilador de teto, sereno em sua poeira. Era necessária uma faxina naquela casa, ela lhe falava.
Ela pesava.
Aos poucos surgiu a dor e nada mais o distraía. Era quente e seca, brasa na pele, trilha de saúvas no meio da artéria. Choraria se tivesse lágrimas, mas elas estavam caras e ele já gastara tudo o que podia pagar horas atrás. Ela nada via.
Ela apagava.
Achou por bem gritar. Encheu o pulmão de ar, abriu a boca, fechou os olhos. Mas calou. A covardia é chuva de vento, invade e molha. O último ano e meio era dor e silêncio, como ali. Desde que ele a vira fugir em passos tortos, a voz cessara. O não-dito era indizível.
Observou a mão. Os dedos estavam arroxeados. Quando criança, costumava pular o muro do vizinho para roubar amoras. Por vezes, comia as verdes. Eram de um azedo sonso, menores e mais duras, de pelos rígidos. Ele torcia a cara, cerrava os dentes e engolia o sumo. Havia prazer naquilo. Comer amoras verdes é um ato masoquista. De todo caso, preferia as maduras. Puxava os galhos e recolhia uma a uma. Depois, enfiava-as na boca e mastigava com força a carne mole e doce da fruta. Não raro era surpreendido pelo vizinho, que diante de tal evidência, corpo roxo e sobrancelhas de culpa, cuspia longos sermões sobre educação, violência e invasão de domicílio.
Seus dedos novamente eram de amora. E aos poucos todo o braço foi tomado pelo mesmo luto. Devagar, a mancha avançava, como sombra que traga a avenida quando o sol quer ir embora por trás dos prédios. A dor era insuportável e, por isso, ele suportava.
A Lapa não dormia. Da janela, putas e bêbados entravam pelo quarto. Ninguém fodia em silêncio naquela rua. Mas ele calava e ouvia a respiração pesada do corpo ao seu lado, estendido na cama, branco, magro e quase sem roupa. Tinha fome dela e o desejo não cabia ali.
Os músculos atrofiaram e o braço era agora metade. Aos poucos, o negro tomou conta de todo o membro. Cogitou mexer o corpo, mudar de posição, mas não podia. Não queria. Ouviram-se estalos. Os ossos quebravam, um a um, e ele quis morrer.
Certa vez procurara deus. Vestiu-se de branco e foi à igreja. Eram gritos altos e palavras fortes regurgitadas sobre ele. Mas o sofrimento é surdo. Viu uma mulher subir no altar. Era gorda e vestia-se de azul. A perna direita estava comprometida e ela andava com dificuldade. Abaixo do joelho, apoiava-se em um pedaço de pele morta e negra, que não era mais grossa que um jornal de segunda-feira enrolado. A outra perna era pelo menos quatro vezes maior e muito mais clara. O pastor anunciou a gangrena. A fé vem do barulho e, após todo o esporro que se seguiu, a senhora desceu sozinha os degraus, equilibrando-se sabe-se deus como naquele pedaço de carne esponjosa e podre.
Se houvesse céu, ele rezaria. Mas era apenas o ventilador que seus olhos alcançavam. O membro necrosado agora era pus. Estava em decomposição e ainda a sustentava. E ele velava seu sono, sentia-lhe a cabeça pesar sobre o braço. Queria que ela nunca acordasse e passaria o resto da vida imóvel, em silêncio. Sentia a dor de quem não cabe em si, sem a gravidade dos que são, sem a gravidade dos que pesam. Ela iria embora. Não havia fé.
Mas ela acordou. Abriu os olhos levemente, sorriu e beijou-lhe o braço. Sentiu gosto de amora.