segunda-feira, 21 de maio de 2012


a poética é rabugenta
dia cinzento
evolução lenta
tiro no vento
quando não venta

a rima é frouxa
sotaque arrastado
mancha roxa
no pé amputado
da moça coxa

o verso é torto
novo por velho
feto morto

a inspiração é vácuo
jornal de ontem

mas ainda assim o poema é.

quinta-feira, 17 de maio de 2012


menina-flor
faz favor
se eu te digo: sim
diz também
se eu digo: casa?
diz amém
me toma no colo
me beija a testa
me ensina o que é assim
o que é assado
levanta a cabeça
amarrota o passado
me abraça amarelo
me sonha de noite
de dia
deitada
deveras
me cansa
me amansa

faz favor
menina-flor
me aceita

domingo, 1 de abril de 2012

Moça deita quando dia
marcada de tanta rua
reza a fé de quem morria
quente, ainda crua.

Quanto noite a moça ria
riso cego, mulher nua
pernas grossas são alforria
do outro, não a sua.

Sabe a moça nenhum gozo
pode deter seu trabalho
silencioso.

estar junto do espantalho
como quem ama o formoso
e vê o caralho. 

sexta-feira, 30 de março de 2012

A raiva, a solidão e o amor do Pedro.

O amor é o cachorro verde. Ele tem 3 olhos porque precisa ver muito. O que os olhos não veem, o coração não sente. A solidão é um Tiranossauro Rex, que tem braços curtos e não pode abraçar ninguém. Já a raiva é um dragão, que cospe fogo até pelas narinas quando deveria soprar hálito de bala azul.

sexta-feira, 23 de março de 2012


Havia um vestido na sala. Ficava pendurado na parede do meio, ao lado do altar de Nossa Senhora. Era rendado, costura fina. Estava amarelo do tempo, a poeira o cobria por inteiro. Aos mais desatentos, poderia parecer uma cortina de janela nenhuma ou um lençol cobrindo um espelho que não existia para uma simpatia desconhecida. Mas era um vestido, pendurado na parede fazia tempo.
A dona dele não morava ali. Nem era parente querida morta em desastre. Já havia sumido no mundo. Veio como foi, choveu e secou naquela casa. Tinha tempo, fez lama. O vestido ainda era branco e cabia certo. A moça se mostrava de dentro de tão pouco pano. O homem viu e se enamorou. Quis o corpo fora do vestido, quis se ver dentro do corpo.
Mas ela não quis. E não quis de tal jeito que ele quis mais. E quis tanto que nem fazia mais querer por nada que não fosse a moça. Quis que o mundo acabasse. Cuspiu na comida, chorou no escuro, rasgou dinheiro.
A esposa tudo viu da outra, calada. O homem bateu, queria que a dor que sentia fosse embora. Mas não foi. Então pediu a mulher que fosse à dona do vestido e dissesse que era homem bom. E ela foi. Viu a moça, com riso de carrasco, escondendo quase nada do seu prazer de vê-la peito aberto e coração na mão.
- Meu marido é homem bom, faz favor de servir ele.
Tanto pediu que a moça se abondou. Aceitou o homem como quem faz compras. E riu da pobre aos seus pés, não deixando nada de troco.
A mulher, se vendo só com criança em berço, fez o que pode. Trabalhou dia mais dia, sem descansar. Tudo parecia barulho sem o silêncio dele. Fez força para morrer, mas não morreu. Fez vontade de cair no mundo, mas não pisou no quintal. Fugia da culpa onde era inocente, sustentava a casa e a dor. O tempo tratou de colocar as coisas em ordem.
A vida é gangorra. A mulher pesava de tanta coisa que carregava dentro, mas de repente se viu lá em cima. O vestido apareceu na sua casa. Vinha acompanhado de uma velha que em nada lembrava a moça de antes. Não trazia um sorriso, mas a cara amassada. Se arrependeu antes tarde do que cedo, pediu perdão pelo feito. Não sabia por onde o homem andava. Ficaram juntos só o quanto seu desprezo durou. Logo que pegou amor ele foi embora. A velha ofereceu o vestido, era só o que sobrara. A mulher aceitou. Tanta renda em tão pouco pano. Pendurou-o na sala, na parede do meio, ao lado do altar de Nossa Senhora.
Ela estava servindo o almoço quando o homem voltou. Ouviu o passo na escada e a respiração forte.
- Mais um prato, mulher.
Não disse qualquer palavra. Obedeceu. O chiado do seu coração foi acalmando. O silêncio dele invadia a casa novamente. Só era cortado, vez em quando, pelo barulho do vento nas rendas do vestido pendurado na parede do meio da sala.

quinta-feira, 1 de março de 2012


Maria trabalha
eu trabalho
não posso ver Maria quando quero

e eu quero tanto
mas tanto
que meu peito dói agonia
de ver Maria ir assim
buscar o dinheiro que não tenho pra dar

o que eu tenho é tão pouco
que cabe nesse coração murcho
chocho
tenho um bocado de carinho
um poema amarrotado
e a promessa de que um dia
acredire, Maria
você vai trabalhar é do meu lado.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Seis vidas


Meu gato morreu envenenado.
É sexta-feira. Fui acordado por minha mãe, que saía para trabalhar quando percebeu algo estranho com o bicho. Meio mole, meio torto, meio morto. Peguei ele pelas costas, sempre tão difícil de ser capturado, e o coloquei sem dificuldade numa caixa de tênis Adidas. Fui ao veterinário.
            Nome ele não tinha. Descobri hoje, inclusive, que ele era ela. Ele era ela e eu não sabia. Não se pode ter um gato sem saber sequer seu gênero. Mas nossa convivência foi curta, hão de convir. Conheci-o(a) dois meses atrás, quando Castiçal, sua mãe, prestes a explodir de tão grande, deu a luz a três lindos gatinhos. Um sumiu no mundo; outro foi para uma criança que acabava de perder seu antigo animal morto com uma paulada na cabeça; e ele(a) ficou.
            Não gostava muito de gente. Rondava a varanda, deitava no tapete, mas ao som de qualquer movimento humano se escondia embaixo da máquina de lavar. De lá, botava a cabeça pra fora do esconderijo e só saía quando todos nós já estávamos distantes.
            Ontem foi assim, mas hoje ele(a) acordou mole no tapete. Não tinha força nem pra levantar a cabeça, que dirá correr para baixo da máquina. E saiu de casa dentro de uma caixa de sapato.
Meu gato foi envenenado, disse o veterinário. Introduziu um termômetro no seu rabo, aplicou-lhe algumas injeções e disse que era isso. Era veneno. Alguém o envenenou, o antídoto foi aplicado, ele(a) é frágil, pequenino, mas deus fará com que sobreviva, vai passar, vai passar, observe-o(a) e volte amanhã. E eu saí, com meu gato mole dentro da caixa do Adidas.
Trouxe ele(a) pra dentro de casa, coloquei-o(a) sobre uma folha de jornal, com uma tigela de leite ao lado e esperei. Vai passar, vai passar.
            E entre os miados-gritados eu o(a) peguei. Passava a mão no pelo frio, no corpo mole, falava baixinho, vai passar, vai passar.
Mas não passou.
E foi assim por uma hora, até que o barulho cessou. O meu gato arisco que estava mole agora estava morto. E não havia o que fazer.
É preciso muito sangue frio pra enterrar o próprio animal de estimação. Joguei-o(a) em cova rasa, porque as ferramentas não ajudavam. A primeira pá de terra é a que dói mais, depois que o cadáver some sob a areia fica fácil, trabalho mecânico, corpo-máquina quando a cabeça para de pensar.
            E o meu gato, que era gata e nem tinha nome, foi enterrado porque morreu envenenado numa sexta-feira de dezembro.
O que dói, agora, é ouvir o miado-chorado de Castiçal em frente à máquina de lavar, esperando seu filho sair, já está tudo bem, menino, não tem mais ninguém aqui, todos saíram pra trabalhar, vem ficar comigo. E ele não vai. Está num buraco no quintal.

sábado, 19 de novembro de 2011

  
"Eu quero que você morra", disse baixo. Mas gritaria pro mundo ouvir, caso ainda tivesse voz.
Procurava desesperadamente uma navalha, um poderoso veneno, uma ponte alta pra se atirar. Era cena. Não tinha a menor vocação pra suicida. E se alguém deveria morrer ali, não era ele.
“Eu quero que você morra”, disse repetidamente para si mesmo. Aos poucos foi colocando as ideias no lugar. Já não estava para pirotecnias. Respirou devagar enquanto repassava o seu mantra mentalmente. Meditava.
Sim, ela merecia. Isso não se discute. Merecia uma morte lenta e torturosa. Analisava todas as possibilidades. Empalada, enforcada no lustre da sala, queimada viva em fogueira de São João. Se ela tivesse sete vidas ele inventaria uma maneira criativa e dolorosa pra acabar com cada uma delas. E cortaria a sua carne em postas finas, e beberia o seu sangue como quem toma coca-cola no verão, e chuparia até o último metacarpo, sugando o tutano de dentro dos ossos.
“Eu quero que você morra”, disse rindo. Era um êxtase. Estava cheio de deus em si, seu desejo já era uma verdade. Ela iria morrer porque ele queria que ela morresse. Morreria ali, agora. Prepararia um funeral sem honras ou homenagens. Acharia o valão mais fundo por onde corresse o esgoto mais sujo e jogaria seus restos. Cuspiria em cima. E tudo acabaria.
Mas ela não morreu. Continuou latejando, doendo fundo nele, matando-o por dentro cada vez que respirava.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Déjà vu


Essa coisa de escrever é bem engraçada. Mexer com o inconsciente reserva algumas surpresas, quase sempre a gente não sabe onde tá se metendo. E hoje revendo A rosa púrpura do Cairo, depois de alguns muitos anos, não é que percebi várias semelhanças com a ficção do post anterior?

domingo, 25 de setembro de 2011


 
Era a felicidade que morava ali, anunciava a placa de madeira pendurada no portão. Haviam se casado recentemente, no papel e na igreja. Pelos cantos, cafeteiras e liquidificadores sem nota fiscal aguardavam um desfecho.
− Antes tivessem me dado bandejas, nunca são demais! Reclamava a moça da falta de criatividade de amigos e parentes enquanto preparava a janta para o marido.
            Conheceram-se um ano atrás, na festa da cidade. Ela, acompanhada das amigas, andaria na roda gigante e esconderia algumas risadas por trás do algodão-doce. Ele, em sua bela farda azul-marinho, gastaria o soldo em vodka e mulheres da vida.
Acharam-se. Três meses depois estavam noivos. Um mês atrás, casados.
Da cozinha, ela o viu chegar, mais cedo que de costume. Entrou sério, deu dois passos, beijou-lhe a testa e disse:
− Vou à guerra.
E foi.
A felicidade tem bicho carpinteiro, não se sossega. Pegou a mala, colocou a viola no ombro e foi-se embora junto com o moço. Não fosse a placa na entrada, ninguém acreditaria que ela havia passado um dia por aquela casa.
A moça chorou, sofreu, quis morrer. Mas o tempo é xarope pra quase tudo. Resignou-se. Passava os dias preparando a janta, acreditando que ele voltaria mais cedo novamente, e com a felicidade a tiracolo.
A alma se assenta, mas o corpo não sabe esperar. Ela resistia às sucessivas investidas que uma mulher de seu porte costuma receber. Não lhe passava pela cabeça cogitar qualquer hipótese de traição, mas as coisas estavam se complicando. Até mesmo tarefas cotidianas lhe pareciam agora extremamente sensuais. Criou um súbito interesse por pepinos e cenouras. Demorava-se escolhendo os legumes no supermercado, tinha predileção pelos maiores e mais rígidos.
Seu comportamento começava a chamar a atenção. Preocupadas, as amigas forneciam-lhe todo o tipo de pornografia. E ela já havia se cansado de assistir filmes eróticos sem sucesso algum. Naquele dia, porém, a cidade sentia os sinais da evolução dos tempos e agora oferecia nos cinemas a exibição de filmes adultos em três dimensões. O desespero é quente. Foi convencida.
Sentada na poltrona, observou o ator, um negro do tamanho de um armário, com extrema atenção. Ousou flertar. Trocaram olhares maliciosos. Ela já não se escondia atrás de algodões-doces. Seduzido, ele veio. Podia tocá-lo, sentir seu cheiro. Era real. Arrancou a roupa e se entregou em todas as dimensões para aquela experiência mística.
Saiu do cinema realizada. Como era possível aquilo? Vivia numa ficção científica que escapava a sua compreensão, mas não aos seus sentidos.
Meses depois, quando se viu grávida, não teve dúvidas de quem era o pai da criança: negro-armário.
Trabalhava na cozinha e cuidava do bebê, quando, mais tarde, seu marido chegou. Não trazia a felicidade com ele, certamente andaram afastados durante todo esse tempo. Talvez nem se reconhecessem mais. Deu dois passos e encontrou o menino. Sentou-se à mesa e jantou. Ouviu a longa história. Deu um beijo na testa da sua mulher e abraçou o seu filho.
Havia aprendido a acreditar em tanta coisa no último ano que, aos seus olhos, aquele menino era uma verdade boa. Até lembrava-lhe, vagamente, a antiga moradora daquela casa.

domingo, 18 de setembro de 2011


ei, moça
escute o que eu digo
pare e me ouça
viver é um castigo
a comida é insossa
o céu é um perigo
e o mar uma poça
o álcool vira amigo
e o café não adoça
inauguro samba antigo
e desando minha bossa
quando não estou contigo
quando não estou contigo
quando não estou contigo

a saudade coça. 
 

domingo, 11 de setembro de 2011

 
"Escrever pensando também na criança e no jovem como receptores, que cobram seriedade, emprenho, competência e talento do autor, ainda que que o mercado, deus sem moral, faça convites indiscriminados, e muitos se considerem chamados a produzir, o que acaba sendo uma greve ofensa ao leitor por desconsiderar sua inteligência e sensibilidade".

Nilma Lacerda, em Cartas de São Francisco: conversas com Rilke à beira do Rio.
     
        Ela morava  ao lado. Era só pular o muro e... pronto! Lá estava a  sua casa com caldeirões,  sapos e cinzas.
Um terreno enorme, com árvores altas, muitas sombras e alguns galos. Eu tentava espirar com cuidado, claro, mas o muro era alto demais, o que na verdade me dava até conforto quando o sol ia embora.
Eu nunca vi a bruxa, mas tenho certeza de que ela sempre esteve lá. Quando aparecia lixo no nosso quintal, não dava outra: “Essa bruxa velha fica jgando as coisas por cima do muro!”.
Sempre pensei que ela fazia isso de noite, com auxílio de sua vassoura voadora. Deixava o caldeirão fervendo em fogo baixo e pegava o que sobrou dos ingredientes da poção do dia para jogar no quintal dos outros. Tudo isso enquanto gargalhava pelos ares.
  “Como uma mulher pode ser tão ruim?” se perguntava a minha vó. E na minha cabeça isso estava muito claro. Ela era ou não era uma bruxa, oras? Então! Nunca vi bruxa boazinha...
Um dia minha mãe acordou e disse: “Vou botar essa bruxa na justiça! Ela vai é se entender com o juiz!”. Meu coração deu um pulo, daqueles dobrados, porque foi de alegria e de tristeza ao mesmo tempo. Eua havia aprendido na aula de História o que a justiça fazia com as bruxas. Depois do julgamento elas eram queimadas em fogueira bem quente!
Ora, jogar lixo na casa dos outros não é nada legal, mas também não é motivo pra queimar ninguém, né?
 E ela não foi queimada. “Essa  bruxa vai me atormentar a vida inteira!” dizia minha vó,  depois minha mãe.
Hoje muito tempo se passou, consigo até olhar por cima do muro, mas a bruxa foi embora. Talvez pra outro terreno maior e com mais lixo, talvez pra bruxolândia. O certo é que dessa batalha entre minha vó e a vizinha bruxa, só eu ainda posso contar a história.
        A verdade é que não tenho conseguido dormir muito bem. E acordar antes das 6 num domingo me soa como pecado. Decidi, então, como penitência, arrumar as gavetas. 
Muitos papeis de todas as cores. Entre tantas cartas de amor, algumas extremamente vergonhosas como devem ser - todas as cartas de amor são ridículas - encontrei um bocado de escritos e rasuras. É engraçado como tanta coisa se perde numa gaveta. Textos antigos, de um Daniel menino, estavam lá amarelando. Textos de um Daniel barbudo no início da graduação, feliz por ter descoberto a américa. E textos do Daniel de agora, torto e remendado, perdido como cego em tiroteio. O engraçado é que alguns, depois de hoje, me parecem até interessantes. 
Aí veio uma vontade danada de escrever. Rilke ri no túmulo. Mas por enquanto, vou tentar esvaziar a gaveta por aqui, já que aqueles papéis velhos me dão uma puta alergia e é preciso colocar tudo no lixo.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Tudo bem. Eu menti com esse negócio de postar com mais frequência.

domingo, 14 de agosto de 2011

O que se sabe sobre amoras


Ele não se movia. O braço zumbia estático sobre a cama, dormente. Balançava os dedos na inútil tentativa de fazer o sangue circular, mas a mão já não obedecia. Concentrava-se na imagem do ventilador de teto, sereno em sua poeira. Era necessária uma faxina naquela casa, ela lhe falava.
Ela pesava.
Aos poucos surgiu a dor e nada mais o distraía. Era quente e seca, brasa na pele, trilha de saúvas no meio da artéria. Choraria se tivesse lágrimas, mas elas estavam caras e ele já gastara tudo o que podia pagar horas atrás. Ela nada via.
Ela apagava.
Achou por bem gritar. Encheu o pulmão de ar, abriu a boca, fechou os olhos. Mas calou. A covardia é chuva de vento, invade e molha. O último ano e meio era dor e silêncio, como ali. Desde que ele a vira fugir em passos tortos, a voz cessara. O não-dito era indizível.
Observou a mão. Os dedos estavam arroxeados. Quando criança, costumava pular o muro do vizinho para roubar amoras. Por vezes, comia as verdes. Eram de um azedo sonso, menores e mais duras, de pelos rígidos. Ele torcia a cara, cerrava os dentes e engolia o sumo. Havia prazer naquilo. Comer amoras verdes é um ato masoquista. De todo caso, preferia as maduras. Puxava os galhos e recolhia uma a uma. Depois, enfiava-as na boca e mastigava com força a carne mole e doce da fruta. Não raro era surpreendido pelo vizinho, que diante de tal evidência, corpo roxo e sobrancelhas de culpa, cuspia longos sermões sobre educação, violência e invasão de domicílio.
Seus dedos novamente eram de amora. E aos poucos todo o braço foi tomado pelo mesmo luto. Devagar, a mancha avançava, como sombra que traga a avenida quando o sol quer ir embora por trás dos prédios. A dor era insuportável e, por isso, ele suportava.
A Lapa não dormia. Da janela, putas e bêbados entravam pelo quarto. Ninguém fodia em silêncio naquela rua. Mas ele calava e ouvia a respiração pesada do corpo ao seu lado, estendido na cama, branco, magro e quase sem roupa. Tinha fome dela e o desejo não cabia ali.
Os músculos atrofiaram e o braço era agora metade. Aos poucos, o negro tomou conta de todo o membro. Cogitou mexer o corpo, mudar de posição, mas não podia. Não queria. Ouviram-se estalos. Os ossos quebravam, um a um, e ele quis morrer.
Certa vez procurara deus. Vestiu-se de branco e foi à igreja. Eram gritos altos e palavras fortes regurgitadas sobre ele. Mas o sofrimento é surdo. Viu uma mulher subir no altar. Era gorda e vestia-se de azul. A perna direita estava comprometida e ela andava com dificuldade. Abaixo do joelho, apoiava-se em um pedaço de pele morta e negra, que não era mais grossa que um jornal de segunda-feira enrolado. A outra perna era pelo menos quatro vezes maior e muito mais clara. O pastor anunciou a gangrena. A fé vem do barulho e, após todo o esporro que se seguiu, a senhora desceu sozinha os degraus, equilibrando-se sabe-se deus como naquele pedaço de carne esponjosa e podre.
Se houvesse céu, ele rezaria. Mas era apenas o ventilador que seus olhos alcançavam. O membro necrosado agora era pus. Estava em decomposição e ainda a sustentava. E ele velava seu sono, sentia-lhe a cabeça pesar sobre o braço. Queria que ela nunca acordasse e passaria o resto da vida imóvel, em silêncio. Sentia a dor de quem não cabe em si, sem a gravidade dos que são, sem a gravidade dos que pesam. Ela iria embora. Não havia fé.
Mas ela acordou. Abriu os olhos levemente, sorriu e beijou-lhe o braço. Sentiu gosto de amora.

A ideia era fazer tudo novo. Mas a iniciativa é natimorta. Ninguém sai limpo do que foi, começar do zero não existe. De toda forma, era preciso respirar qualquer coisa de diferente e, por isso, resolvi reinicializar o blog. Todos os posts foram removidos, ou melhor, transferidos pra outro espaço. Do que não se sabe será o meu cemitério. Lá foi sepultado o que antes fez parte disso aqui. Sem choro, nem vela. Quando der saudade, é só passar e deixar uma flor. 
Mas após o terceiro dia tudo pode ressuscitar. Não será nenhuma novidade se textos antigos vierem morar nesse espaço novamente, cansados da estadia monótona e infrutífera do paraíso. 
            As atualizações serão mais freqüentes, perderei 5 quilos e diminuirei a ingestão de álcool.
            Estamos em funcionamento.